Especialistas alertam para relação entre apostas online, sofrimento emocional e risco de suicídio
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/Arquivo
Profissionais de saúde mental chamam atenção para os impactos que o uso problemático de plataformas de apostas online, conhecidas como bets, pode provocar na saúde emocional. O alerta ganha destaque durante o Setembro Amarelo, campanha de conscientização e prevenção ao suicídio.
Especialistas ressaltam que apostar não significa, necessariamente, que a pessoa desenvolverá depressão ou terá pensamentos suicidas. O risco aumenta principalmente quando as apostas deixam de ser uma atividade eventual e passam a ocupar espaço central na rotina, acompanhadas de perda de controle e consequências negativas.
Entre os sinais que merecem atenção estão desesperança, sensação de não encontrar saída, isolamento, mudanças de comportamento, aumento do consumo de álcool e falas relacionadas à morte ou à falta de vontade de viver.
A psiquiatra Kátia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, defende que pensamentos relacionados ao suicídio sejam abordados de forma aberta durante o tratamento. Segundo ela, pessoas que procuram ajuda por causa do jogo problemático muitas vezes já apresentam ansiedade, humor deprimido e sofrimento provocado por prejuízos financeiros.
Ciclo de perdas
O mecanismo das apostas pode envolver o sistema de recompensa do cérebro. De acordo com o neurocirurgião Orlando Maia, a expectativa de ganhar pode estimular a liberação de dopamina e reforçar o comportamento de apostar.
Com a repetição, a pessoa pode passar a aumentar os valores apostados para tentar recuperar perdas. O comportamento também pode ser acompanhado pela tentativa de esconder os prejuízos de familiares e amigos.
Esse ciclo pode resultar em endividamento, conflitos familiares, problemas profissionais, insônia, ansiedade, culpa, vergonha e isolamento. Em situações mais graves, o conjunto desses fatores pode contribuir para um quadro de desesperança e aumentar o risco de pensamentos suicidas.
Outro fator apontado pelos especialistas é a facilidade de acesso às plataformas. As apostas estão disponíveis pelo celular praticamente durante todo o dia e são frequentemente associadas a eventos esportivos, publicidade e redes sociais.
Família pode ajudar a identificar o problema
Profissionais de saúde destacam que muitas pessoas com comportamento de jogo problemático não reconhecem sozinhas a necessidade de buscar ajuda. Por isso, familiares e amigos podem ter papel importante na identificação de mudanças de comportamento.
A psicóloga Claudia Feres, que atua em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) no Distrito Federal, ressalta a importância do acolhimento e da participação da família no processo de tratamento.
Segundo os especialistas, o acompanhamento deve ser individualizado e pode envolver profissionais de diferentes áreas. Em alguns casos, o tratamento psiquiátrico e o uso de medicamentos podem ser necessários.
A psiquiatra Giovanna Quinet reforça que perguntar diretamente sobre pensamentos suicidas não estimula esse comportamento. Segundo ela, a abordagem pode abrir espaço para que a pessoa fale sobre um sofrimento que vinha sendo mantido em silêncio.
Quando procurar ajuda
Os profissionais recomendam que pessoas que apresentem sinais de sofrimento emocional ou perda de controle sobre as apostas procurem atendimento especializado. Familiares também podem buscar orientação quando perceberem mudanças significativas de comportamento.
Em situações de risco imediato de suicídio, a recomendação é não deixar a pessoa sozinha e procurar atendimento de emergência.
O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) pode ser acionado pelo 192. Para quem precisa conversar e receber apoio emocional, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.
A orientação dos especialistas é que o jogo problemático seja tratado como uma questão de saúde e que a busca por ajuda aconteça antes que as consequências financeiras, familiares e emocionais se agravem.
Fonte: Agência Brasil




